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A política da pós-verdade

30 de junho de 2017 - Veiculado em Boletim BMJ

No ano passado, a Oxford Dictionaries – divisão da Universidade de Oxford, no Reino Unido, responsável pela concepção de dicionários da língua inglesa, elegeu Post-truth (ou “pós- verdade”em português) como palavra do ano de 2016. De acordo com o próprio dicionário, a definição do vocábulo consiste naquilo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais”. Ou seja, a verdade dos fatos importa menos do que como a opinião pública enxergará a situação e o impacto que isso causará.

A palavra do ano é sempre escolhida como uma representação do ethos, humor ou preocupação coletiva ao longo do ano ao qual se refere. Ela tem um potencial duradouro e reflete mais do que apenas um modismo: simboliza uma representação cultural. O cenário político e econômico global que vem se instalando desde 2015 nos ajuda a compreender o porquê da escolha dessa palavra. Cientistas políticos usam o termo pós-verdade política quando em um debate, o importante não é apresentar a verdade, mas sim ganhar a discussão (ou em alguns casos, a eleição).

Em uma visão mais crítica, o artigo A arte da mentira, do jornal The Economist, aponta que vivemos em um mundo no qual a veracidade não é mais relevante e que políticos, como Donald Trump, se baseiam em frases que “passam a sensação de serem verdadeiras, mas que não têm nenhuma base real”. E, mais do que isso, por vezes proferem uma situação sabidamente irreal para se beneficiarem ou prejudicarem concorrentes. Como na ocasião na qual o próprio Trump acusou Barack Obama e Bill Clinton, marido de Hillary Clinton, de terem fundado o Estado Islâmico1. Ou quando ele publicou um tuíte dizendo que o New York Times estava perdendo seguidores por causa da cobertura equivocada de sua campanha e o jornal respondeu em outro tuíte, no qual afirmou o contrário, que suas assinaturas na verdade haviam aumentado.

A fala de Trump teve 13 vezes mais retuítes do que a da página oficial do NYTimes. O presidente dos EUA compartilhou a sua visão, seguidores endossaram e replicaram a informação. Mas afinal, o fato é real ou não? Não importa, pois a imagem do jornal já foi prejudicada numa primeira instância.

 

CONTEXTO BRASILEIRO

Na cultura brasileira, já é enraizada a chacota da “propaganda política” onde os candidatos fazem promessas infundadas, discursam somente sobre o que a população quer ouvir ou exageram os seus planos de atuação. É um grande jargão. Entretanto, a pós-verdade se difere no sentido que já não está no campo da probabilidade – um político pode ou não investir em educação –, ela é a própria afirmação mentirosa. Em repetidas situações, provas criminais são apresentadas contra um sujeito e ele afirma veementemente que não o fez ou não sabe do que se trata, mesmo tendo sido grampeado e fotografado.

O caso recente da divulgação da delação premiada de Joesley Batista, dono do frigorífico JBS, exemplifica os impactos da pós-verdade. Quando ele acusou o Presidente Michel Temer de ter concordado com o pagamento de uma mesada para o ex-deputado Eduardo Cunha, antes mesmo que fossem divulgados os áudios que comprovavam tais fatos, a mídia brasileira se dedicou quase que exclusivamente a reportar o acontecido e o resultado foi uma disseminação global da notícia que culminou em circuit breaker na primeira hora de abertura da Bovespa e fortes quedas nos preços de ações como as da Vale do Rio Doce (-11%), Petrobrás (-23%), Ambev (-7,5%) e Banco do Brasil (-25%). Ou seja, antes mesmo da comprovação da veracidade da acusação e da confirmação oficial dos próximos passos legais, a economia brasileira acabou sofrendo um golpe profundo. Neste caso, não quer dizer que Joesley estava mentindo, mas que a mídia replicou uma informação como verdadeira sem a apuração necessária e produziu impactos na opinião pública e no cenário econômico.

Quando foram liberados os áudios da investigação, jornalistas e especialistas afirmaram que o teor das gravações não era tão grave quanto o que foi reportado pela mídia. Um exemplo foi a jornalista da Jovem Pan, Vera Magalhães, que pediu desculpas publicamente por ter disseminado o fato sem a checagem prévia e ainda, por ter sido tão enfática em suas acusações. Em vídeo, ela afirmou “uma vez liberados os áudios, não há essa literalidade que divulgamos. […] A função do bom jornalismo é checar toda e qualquer notícia e fugir da euforia”.

 

Texto publicado na revista Boletim BMJ de junho de 2017. Leia aqui.

 

 

CATEGORIA: Comunicação Estratégica

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