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A crise do Qatar e os desdobramentos macroeconômicos

14 de julho de 2017 - Veiculado em Boletim BMJ

No dia 05 de junho, a Arábia Saudita liderou seus aliados – Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Iêmen e outros países menores – em uma ofensiva política contra seu vizinho, o Qatar, rompendo relações diplomáticas e lhe impondo bloqueio aéreo, terrestre e marítimo, expulsando catarianos residentes dentro de suas fronteiras, restringindo voos da companhia estatal Qatar Airways e boicotando produtos catarianos.

A principal acusação do bloco é a de que o Qatar estaria patrocinando o terrorismo islâmico, fornecendo dinheiro, por exemplo, para grupos como a Frente al-Nusra, o ramo da Al-Qaeda lutando na Guerra Civil Síria, iniciada em 2011, contra o governo de Bashar al-Assad. No entanto, esta seria mais uma justificativa aceitável aos olhos do Ocidente do que a motivação mais profunda para a ruptura. Desde a subida ao poder do emir Hamad bin Khalifa al-Thani, em um golpe de Estado que derrubou seu pai, em 1995, o Qatar tem assumido cada vez mais um papel de protagonismo dentro da política do Oriente Médio. Usando de sua enorme riqueza advinda da exploração de seus recursos naturais, o emirado procurou se mostrar como um ator benevolente e isento, por exemplo, em suas inúmeras mediações diplomáticas, promovendo cessar-fogos e libertações de reféns em Gaza, no Líbano, na Síria e em diversas outras ocasiões. O país também soube utilizar a mídia a seu favor – a agência de notícias Al Jazeera, financiada pelo governo, esteve na vanguarda da cobertura dos protestos conhecidos como a “Primavera Árabe”, a partir de 2011, contra os governos ditatoriais e corruptos na região. O auge dessa estratégia de state-branding se deu em 2010, quando resultou campeã a candidatura qatariana ao direito de sediar a Copa do Mundo de 2022. Junto de seu maior aliado, a Turquia de Recep Tayyip Erdogan, o Qatar apoiou os grupos islâmicos conforme estes assumiam proeminência em contextos de guerra civil (como na Síria e na Líbia) e instabilidade política (caso do Egito).

A postura qatariana foi vista com crescente suspeita pela Arábia Saudita, tradicionalmente acostumada a ditar os rumos entre as monarquias conservadoras do Golfo Pérsico. Maior aliado estratégico dos Estados Unidos no mundo árabe, a casa de Saud encarou com preocupação os levantes das juventudes árabes, zelosa de uma eventual perda de sua influência com regimes amigos, e em muitos casos apoiando forças reacionárias, como nos golpes de Estado que levaram ao governo de Abdel Fattah al-Sissi no Egito, em 2013, e à guerra civil na Líbia, em 2014. Também contribui para a atual deterioração das relações a postura independente do Qatar em relação ao Irã.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, que transformou o vizinho persa em uma república teocrática xiita, o cálculo político em Riad tem sido primariamente caracterizado pelo seu antagonismo para com o regime dos aiatolás. E, no entanto, o Qatar mantém relações diplomáticas e econômicas profundas com o Irã, tendo inclusive anunciado em abril que começaria a explorar o maior campo de gás natural do mundo, South Pars, cuja posse é divida com Teerã. De fato, um dos gatilhos da crise teriam sido comentários do atual emir Tamim bin Hamad al-Thani em elogio ao Irã, no final de maio – o governo garante que as declarações são falsas e fruto do trabalho de hackers.

 

OS EFEITOS NO COMÉRCIO INTERNACIONAL

Apesar de sempre ressaltar a gravidade da ruptura diplomática, e do alto grau de incerteza no curto prazo, o governo qatariano tem procurado passar uma imagem de normalidade perante a comunidade internacional. “Podemos viver assim para sempre” disse no dia 08 de junho o ministro de Relações Exteriores, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, alegando que apenas 16% dos alimentos que o país consome vêm dos países que aderiram ao bloqueio.

De fato, novas rotas para o transporte de alimentos foram estabelecidas com a ajuda do sultanato neutro do Omã, do tradicional aliado turco e, ironicamente, do país com o qual a Arábia Saudita mais temia uma aproximação dos catarianos: o Irã.

No entanto, investidores continuam atentos aos possíveis efeitos de longo prazo que o bloqueio pode ter, em especial sobre o maior ativo de exportação do Qatar, responsável pela sua influência econômica e política desproporcional em relação ao seu tamanho: o gás natural liquefeito (na sigla em inglês, LNG), que tem no emirado seu maior produtor mundial, responsável por mais de 1/3 de seu comércio internacional nos últimos anos.

Os efeitos imediatos após o anúncio do bloqueio foram a queda das ações na Bolsa de Valores do Qatar (com perdas entre 4,5% e 10%); a diminuição do Índice Qatar em 7,5% ; bem como a redução de 1% no preço do barril de petróleo Brent internacional. O Qatar é um dos menores produtores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e existem preocupações de que o bloqueio venha a afetar um pretenso acordo internacional para cortar a produção e subir o preço do barril.

No entanto, o impacto nos preços do LNG se manteve em grande parte limitado – dentre os bloqueadores, apenas o Egito e os EAU são importadores do LNG catariano, perfazendo menos de 8% das suas exportações em 2016. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) obrigaram três navios do Qatar a abandonar o porto de abastecimento de Fujairah, no Oceano Índico, eles estacionaram no porto catariano de Ras Laffan. No entanto, preocupados em não piorar as tensões, os catarianos preferiram manter constante o fluxo do gasoduto Dolphin, que fornece até ¼ do LNG consumido pelos emiratis.

Os egípcios, por sua vez, controlam o Canal de Suez, essencial para a passagem de navios levando LNG qatariana em direção à Europa e outros portos no Atlântico. No dia 08 de junho, dois navios levando LNG para os portos britânicos de Milford Haven e South Hook desviaram de suas rotas antes de alcançar o canal. A expectativa de que o Egito tivesse, mesmo que de forma sutil, imposto restrições ao regime de livretrânsito de navios de todas as bandeiras por Suez – por onde passa 13% de todo o LNG comercializado mundialmente – obrigando os navios com a bandeira catariana a contornar a África, fez com que os papéis futuros do gás natural no Reino Unido subissem quase 4%.

No entanto, as preocupações se dissiparam logo nos dias seguintes, quando outros cargueiros vindos e destinados ao Qatar cruzaram o canal em ambos os sentidos. A decisão dos dois cargueiros de não passar por Suez, disseram analistas, provavelmente partiu de Doha, para evitar pagar dólares aos seus sitiadores egípcios.

O suprimento de LNG qatariana aos seus maiores consumidores mundiais – Índia, Japão, Coreia do Sul e Taiwan – está, no momento, assegurado. Como lembrou Saad al-Kaabi, CEO da estatal Qatar Petroleum (a qual controla a Qatargas), navios saindo do Qatar têm acesso a águas internacionais através do Estreito de Ormuz, ladeado por Irã e Omã, e não precisam passar pelo território marítimo de nenhum país que aderiu ao bloqueio. Al-Kaabi também afirmou que estão asseguradas a nota ‘A’ de crédito e a perspectiva estável para os títulos da QP na avaliação da S&P, e reiterou a determinação da estatal em manter ininterruptos os estoques enquanto “fornecedor de LNG mais confiável do mundo”. Mais recentemente, al- Kaabi também afirmou que, com o planejado começo da exploração de LNG no campo de South Pars, o país pretende aumentar sua produção em cerca de 30% entre 2022 e 2024.

 

(*) Texto publicado no Boletim BMJ de Julho 

CATEGORIA: Relações Governamentais

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